Florestas, sonhos e resistência


A escritora Ursula Le Guin reforça a crítica às práticas humanas de exploração do meio ambiente e das comunidades tradicionais em “Floresta é o nome do mundo” (editora Morro Branco), mais uma história de ficção científica concebida a partir da mitologia planetária da autora. No planeta Athshe, a palavra usada para mundo também é a palavra usada para floresta, para lembrar o leitor que, no fim, é tudo uma coisa só.


Depois de utilizarem os recursos naturais da Terra de forma nada sustentável e planejada, os homens partem para outros planetas para expandir a exploração. Formam colônias pelo espaço e extraem delas aquilo que exterminaram em seu próprio planeta. Uma dessas colônias é Athshe, dotada de enormes florestas que, aos olhos dos terranos, nada mais são do que fonte de madeira e outros insumos.


No meio dessas densas e ricas florestas, vivem humanoides que medem aproximadamente um metro de altura e têm o corpo coberto por uma pelugem verde. Esses seres possuem características especiais: usam o canto para substituir o embate físico, conseguem sonhar acordados e controlar o percurso dos sonhos.


Ao chegarem em Athshe, os homens da Terra tentam conhecer essas características dos creechies (forma pejorativa como se referem ao povo da colônia) e percebem, com total surpresa, que eles não possuem instintos violentos. Desconhecem estupros, assassinatos e coisas do tipo.


O plano de exploração da colônia passa também por escravizar os athsheanos que, a partir de um momento, decidem se rebelar contra a situação e surpreendem os colonizadores com ataques às bases, hangares e cidades. Os invasores não acreditam no que veem, afinal, pensavam que os creechies não fossem capazes de expressar qualquer agressividade.


Os humanoides verdes, liderados por Selver, mostram o quanto aprenderam com os humanos colonizadores. Numa passagem do livro, o capitão Lyubov sintetiza a trama:


“Bem, eu me pergunto se não estão provando sua adaptabilidade agora. Ao adaptarem seu comportamento a nós, à colônia terrestre. Por quatro anos, eles se comportaram conosco como se comportam uns com os outros, (...) nos reconheceram como membros da sua espécie, como homens. (...) Ignoramos as reações, os direitos e as obrigações da não violência. Matamos, estupramos, dispersamos e escravizamos humanos nativos, destruímos suas comunidades e derrubamos suas florestas. Não seria surpresa se eles decidissem que não somos humanos”. (p. 63)


Em outro trecho, Selver se nega a acreditar na insanidade dos homens da Terra e é rebatido por Ebor Dendep, uma mulher que faz parte de sua equipe:


“Mas eles só sonham dormindo, você quem falou. Se querem sonhar acordados, tomam veneno para que os sonhos saiam do controle, você disse! Como alguém pode ser tão maluco? Eles não diferenciam o tempo dos sonhos do tempo do mundo, não mais que um bebê. Quando matam uma árvore, talvez pensem que ela viverá de novo!”. (p. 47)


As ameaças ao meio ambiente e aos povos da floresta fazem com que o livro, publicado originalmente em 1972, seja extremamente atual.

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