Inventário de carros abandonados



O prédio onde moro fica bem posicionado, no meio da grande quadra de uma rua conhecida do centro da cidade. Com pouco mais de um ano vivendo aqui, não me sinto mais no direito de dizer “meu bairro novo” ou coisa parecida.


Na verdade, o bairro é bem antigo e, embora eu ande por suas ruas como quem reencontra um velho amigo, reconheço que um ano é pouco para supor tamanha intimidade.


Andar a pé tem suas vantagens. Uma delas é reparar nos pormenores, observar aquilo que dificilmente veríamos de dentro de um carro ou outro meio de transporte. Andar a pé permite inventar caminhos e inventariar objetos, o que só é possível por conta dessas andanças despretensiosas.


O Fiat Uno modelo antigo foi o começo de tudo. Fora os pneus murchos e desgastados, o restante do veículo parecia em bom estado. Sempre que passávamos por ele, minha mãe comentava: “Como podem abandonar um carro assim? Está bastante conservado”, ela dizia, indignada.


O Uno era branco e estava apoiado por duas pedras grandes colocadas em frente aos pneus dianteiros para impedir que o carro descesse ladeira abaixo. Perguntei aos porteiros e a alguns moradores de prédios vizinhos, mas ninguém soube dizer a quem pertencia e quando chegou por ali.


Anotei a placa do carro e disquei para a polícia. Talvez tivesse sido roubado e abandonado pelos criminosos. Talvez o dono estivesse à procura, precisando do automóvel para desempenhar suas atividades. Pela central telefônica, a atendente informou que não havia nenhum registro de ocorrência envolvendo o Uno, que permanecia estacionado na minha rua, terrivelmente esquecido.


Em menos de dois meses morando na região, eu havia catalogado outros três carros abandonados nas proximidades: um Celta prateado, a Belina branca e a Hilux preta. Com todos eles, executei o mesmo modus operandi: rodar a vizinhança para conversar com os moradores, ligar para a polícia e checar as placas. Ao fim, as respostas foram as mesmas: ninguém sabia de nada, ninguém tinha visto nada.


Havia uma particularidade na Hilux. Numa das janelas, se destacava o adesivo enorme com o rosto de uma candidata à vereadora nas eleições passadas. Nas minhas pesquisas, descobri que a mulher não foi eleita, faleceu pouco depois das eleições e a família não tinha a menor ideia de quem seria o dono da camionete. Assim como o Uno, ela trazia pneus velhos e murchos como a superfície de um maracujá apodrecido.


O vazio inesperado invadiu o quarto junto com o vento quando abri a janela naquela manhã quente. Nada restava no lugar do Uno, a não ser as duas pedras grandes usadas para apoiar os pneus. Todos os dias, assim que acordava, eu abria a janela insistentemente e o vazio permanecia diante dos meus olhos. Até que o carro voltou, três semanas depois do sumiço. Tudo igual, os mesmos pneus murchos e desgastados.


Os carros passaram a desaparecer alternadamente, cada um a seu tempo. Iam e voltavam como fazem a fome, o desejo, o prazer e o medo. Eu me angustiava com os sumiços e me satisfazia com os retornos, com os vislumbres dos automóveis nas minhas viradas de esquina ou ao escancarar a janela.


Entre as idas e vindas, lembrei do sumiço da vó, da ideia de que esbarraria com ela numa das esquinas do bairro, a qualquer momento. Voltei ao dia em que a estampa marcante num vestido de senhora fez os passos acelerarem, quase correrem. Só podia ser ela, mas claro que não era. Tolice! Com o sumiço do pai, a mesma coisa. A visão de qualquer chapéu Panamá deixava os pés afoitos.


Um dia, todos sumiram ao mesmo tempo - o Uno, o Celta, a Belina e a Hilux - numa trama misteriosa que suspendeu o tempo. Seria coincidência? Não creio. Antes dançavam sem sintonia, cada um a seu modo, em ritmos diferentes. Então a banda acertou o compasso, os sons se harmonizaram e os carros foram rodopiar juntos, em algum lugar.


Meus pés vagaram pela vizinhança na busca de encontrar os veículos, saber dos sumiços, dos retornos, de possíveis donos. “Carros? Que carros?”. Só sabiam alegar desconhecimento ou, até mesmo, questionar a existência dos automóveis. Não viram nada, não sabem de nada. No fundo, eles nunca sabem.

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Boas vindas!

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