Navio ao longe



Ilustração: Dani Dias (@danidiasarte)

Na primeira vez em que Sara avistou o navio, quase não o notou. Vinha de cabeça baixa, no retorno da escola, doida para chegar em casa. Pensava nas tarefas que deveria entregar no outro dia e no quanto detestava aquilo: dedicar o tempo para os deveres de casa. Morava na cidade quente, de cara para o mar, com a eterna brisa fresca a bagunçar os cabelos. Tinha muito a explorar naquele mundo e precisava de tempo. Por isso, as tarefas a deixavam incomodada.

O olhar saiu do paralelepípedo e ganhou o horizonte. O navio estava nele, na imensidão em que o céu encontra o mar. Era branco, com desenhos verdes espalhados pelo casco. Entre esses desenhos havia o nome da embarcação, Rosa dos Ventos, escrito em letras pretas. Dos fios amarrados ao mastro, partiam conjuntos de bandeirolas brancas, resumidas a um pequeno pontilhado para os olhos que observavam à distância.

Sara tirou os sapatos, sentou-se em cima deles, permaneceu a olhar o mar e o navio por quase meia hora. Depois correu para casa, onde os pais e o irmão estavam à espera dela para o almoço. Nos anos que se seguiram, o Rosa dos Ventos apareceu outras vezes por ali, mas nem todos conseguiam vê-lo. Sara sempre via e, quando acompanhada, apontava o horizonte como um convite para a observação do outro. “Não tem nada lá”, a maioria dizia.

Chegou a pensar que estava louca, mas lembrou da vez em que o irmão disse ter visto a embarcação. Se ele viu, então estava tudo bem, podia ficar tranquila. Quando se aproximou o tempo de viver na cidade grande, que ficava longe da brisa do mar, Sara juntou os apetrechos de que precisava: saída de praia, lampião, água mineral e algo para amenizar a fome. Foi para a beira do mar, encarar o navio até que ele decidisse que destino seguiria.

Passou a noite sobre a areia fofa, num piquenique em que o mar era o principal convidado. Adormeceu depois de algumas horas a fitar o Rosa dos Ventos, mais imóvel do que nunca. Quando Sara acordou, o navio permanecia no horizonte, no mesmo lugar de sempre. Ela reuniu os apetrechos e partiu, tinha que estar na rodoviária dentro de poucas horas.

Talvez agora o navio pudesse aportar. Ou, simplesmente, partiria dali junto com ela.

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