Poemas no banho


Ilustração: Dani Dias (@danidiasarte )

Mesmo com o calor intenso do lado de fora, os banhos eram sempre quentes. Luna tirava a roupa, fechava a janela do banheiro, conferia a posição inverno no chuveiro e tomava lugar para receber a água quase a ponto de ebulição. Gostava assim. Em poucos minutos, o vapor preenchia o ambiente e ela usava o dedo indicador para fazer desenhos e escrever poemas no vidro embaçado do box.


De banho tomado, antes do vapor se dissipar, encarava o rosto no espelho do banheiro pelo tempo que desejasse. Fazia caretas, observava traços, as linhas do rosto, as mesmas expressões usadas para sentimentos tão diferentes e controversos. O espelho foi um achado, peça bonita, a borda toda em marchetaria, comprado no bazar em casa de família endividada.


Após um daqueles banhos quentes e demorados, ela tentou reconhecer o próprio rosto no espelho embaçado, repleto de gotículas. Reparou a primeira letra a se formar, seguida de outras e, assim, viu nascer palavras e frases, um poema recém-parido que chorava forte e tinha a cara dela, filho legítimo.


A cada banho quente, um novo escrito nascia no espelho e, em seguida, era copiado no caderno novo, presente da mãe, guardado na gaveta do escritório durante anos. Em trinta dias, trinta poemas brotados de um pedaço de vidro, saídos da alma. No trigésimo primeiro dia, logo que o texto se formou, as rachaduras tomaram a superfície que refletia todo o cômodo e o rosto da moradora. Milhares de pedaços foram ao chão.


Somente a borda delicada, feita em marchetaria, permaneceu na parede. A moça caminhou até o escritório em busca do caderno de anotações, decidida a deixar para depois os milhares de cacos espalhados pelo banheiro. Sentada na cadeira, Luna se pôs a folhear o caderno em busca dos escritos registrados naqueles trinta dias. Nada de poemas, apenas páginas em branco. Feito o vapor dos banhos quentes que ela tanto gostava, as palavras se dissiparam, evaporaram.

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