Rodopios



O telefone dela apita três vezes enquanto subimos as escadas da escola de dança. Deve ser trabalho, workaholic, sabe? Não vejo vantagem alguma. O peso da mochila que ela carrega faz o corpo arquear, torna a subida lenta. “Suzana”, eu chamo pela primeira vez, sem resposta. Talvez não tenha ouvido. “Suzana”, chamo pela segunda vez, mais alto. Silêncio.


No segundo andar, procuro um local estratégico, em frente ao janelão de vidro que permite ver todo o movimento dentro da sala. Suzana vai ao banheiro e surge, minutos depois, num coque esticadíssimo, nenhum fio fora do lugar, as bochechas rosadas pelo blush, collant preto, meia-calça bege, sapatilhas da mesma cor. Deposita a mochila aos meus pés e mergulha naquele aquário onde outras mulheres distribuem pliés, en dehors, saltos e rodopios enfeitados pelas primeiras rugas.


Rapidamente entendo que a aula é sobre girar. As alunas formam uma roda e, de tempos em tempos, uma delas se dirige ao centro, posiciona as mãos, prepara a postura e obedece às instruções da professora. Plié, relevé, fouetté. Gira, gira, gira. Suzana parece insegura, se desequilibra, mas não desiste. Endurece a face quando nota que observo a aula, geralmente fico no celular. O rodopio melhora na terceira tentativa, nitidamente impulsionada pelo peso da minha atenção. Os aplausos ao fim do movimento confirmam a evolução e os olhos de fogo, acesos por um orgulho besta, me encaram decididos. Volto ao celular.


Nos jogos, prefiro os quebra-cabeças, me instigam e relaxam. Poderia passar horas com os olhos neles, mas Suzana interrompe o momento com objetividade. “Vamos! ”. Enfio o celular no bolso e acomodo a mochila nas costas. Suzana vai à frente, como sempre. Passamos pela recepção, a secretária acena simpática e sussurra um “até logo”. Só eu respondo.


Perto do carro, Suzana me puxa pelo braço. Paramos os dois, no meio do estacionamento quase vazio.

“Achou que eu não daria conta, né?!”

“Do que você tá falando?”.

“Do giro, do fouetté.”

“Pelo contrário. Eu sei que você sempre consegue”.

“E você sempre torce contra”.

“Lá vem você de novo... vamos pra casa, eu dirijo”.

“Ao menos isso".


Destravo o alarme, espero ela entrar. Seguro a chave com a mão direita enquanto me distancio do carro. De dentro dele, os gritos são abafados, sufocados. Caminho em direção à rua, sem calcular aonde os passos vão dar. Simplesmente não sei. Escuto a porta se abrir e Suzana esbravejar ao lado do veículo: “Canalha! Vai me deixar aqui? Covarde!”.


Viro para encará-la, como se fosse a última vez. Com todas as raivas contidas e alimentadas no corpo, atiro a chave com força e a vejo rodopiar, um giro bonito, finalizado pelo meu grito: “Você dá conta!”. Retomo a caminhada até lugar nenhum. Ela que se vire. Suzana não dirige.

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