Torto Arado: Espaços para existir e resistir

Quando José Alcino, o Zeca Chapéu Grande, chegou à fazenda Água Negra, buscava um pedaço de terra para plantar e ganhar a vida. Buscava uma morada, o que seria uma vitória e tanto para um homem negro descendente de escravos.


Em Água Negra, na região da Chapada Diamantina, ele encontrou Sutério, que lhe entregou um bilhete: “Pode levantar casa de barro. Proibido casa de tijolo”. Zeca se fixou na fazenda, onde passou a arar a terra, cultivar, construir a casa de barro que se desfazia um pouco a cada dia e precisava de reparos frequentes. Casou-se com Salustiana e depois levou a mãe (Donana) para viver com eles.


A família Peixoto, dona de Água Negra, acompanhava de perto as ações dos moradores, pilhava seus alimentos, levava o que tinham de melhor. Num ciclo sem fim de trabalho excessivo e pouco retorno, homens e mulheres encontravam consolo em Zeca, o líder espiritual que fazia milagres através do jarê e suas entidades.


Pelas vozes de Bibiana e Belonísia (as filhas de Zeca), o escritor Itamar Vieira Junior apresenta os personagens de “Torto Arado” e constrói as duas primeiras partes da obra. Na terceira e última, os acontecimentos são narrados por uma entidade, Santa Rita Pescadeira.


Ao longo das páginas, percebemos que a vida na fazenda era a mesma escravidão de antes fantasiada de liberdade. “Mas que liberdade? Não podíamos construir casa de alvenaria, não podíamos botar a roça que queríamos”. (p. 220)


O sangue que jorra das línguas de Bibiana e Belonísia nas primeiras páginas da narrativa, atravessa toda a trama, marcando a terra e as vidas dos trabalhadores. Gente em busca de um lugar, de oportunidades.


Entre tantos planos, “Queriam ter casas de alvenaria. Queriam moradas que não se desfizessem com o tempo e que demarcassem de forma duradoura a relação deles com Água Negra”. (p. 255)


Me fizeram lembrar a escrita de Carolina Maria de Jesus e a vida na favela. Esse lugar que ela enxergava como um “quarto de despejo”, a parte da casa em que são colocados os objetos inúteis, aquilo que desprezamos. Carolina, que também descendia de escravos, desejava ter uma casa de alvenaria, um espaço simbólico que indicasse alguma permanência e visibilidade. Mais do que ter um lugar físico para viver, a casa de alvenaria significava ter um lugar na sociedade, ter visibilidade dentro dela.


“Torto Arado” alcançou, em fevereiro de 2021, a marca de 70 mil exemplares vendidos. A procura pela obra aumentou especialmente após a divulgação dos prêmios Oceanos e Jabuti de 2020, em que o livro figura entre os vencedores. Um dos importantes feitos de Itamar Vieira Junior com sua obra é atrair a atenção do público e do mercado editorial para os escritores contemporâneos brasileiros, abrindo caminho para que outros nomes da nossa escrita (brasileira) despontem.


Para saber mais sobre o escritor e a obra, sugiro o episódio “A Bahia é o meu centro”, do podcast da Revista 451.




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