Um bilhete para Leonard Cohen

É tudo adeus. Martelava a frase na cabeça, repetidamente, enquanto o chiclete passeava pela boca. Não tinha mais o gosto original de menta e, nem por isso, iria para o lixo. Mascava a goma e os pensamentos, sem querer se livrar de nenhum deles. Sabia de suas insistências, dos martelos invisíveis e pontas de faca que esmurrava sem dó e sem sangue.


Na biblioteca aconchegante, perdida num país que não era o seu, entre pessoas totalmente alheias, encontrou o bilhete ao abrir um livro. O pedaço de papel trazia a letra de Hey, that’s no way to say goodbye, canção do Cohen. Gostava dele e, especialmente, daquela canção. De quem seria a letra bem desenhada no bilhete, que mesmo deitada em papel sem pauta, insistia na retidão?


Ela tirou o celular do bolso, pôs o fone de ouvido, procurou pela música num aplicativo qualquer e fechou os olhos para escutar. Imaginou o rosto que não conhecia, as mãos que nunca tocou, a ocasião em que o bilhete ganhou vida. Quando abriu os olhos novamente, segurou a caneta com força e decidiu escrever em resposta à canção.


Caro Sr. Cohen, não sei quantas vezes já me despedi de alguém. Faço o tipo dos que preferem olhar o chão e encurtar ao máximo as despedidas. Talvez seja medo, talvez eu não saiba fazer diferente. Escuto tua canção e me preparo para um adeus que vai parecer abrupto, brusco, repentino. Mas é o meu adeus e é necessário. Há coisas que realmente não podemos desatar, como o passado. Eu sei que não somos novos, mas ainda temos tempo e ele é o melhor aliado. Isso não é jeito de dizer adeus, você diz, mas qual o jeito certo?


Um sinal sonoro avisou que a biblioteca fecharia em breve. Ela dobrou o bilhete em resposta à canção e o colocou dentro de um livro, nem observou o título da obra. Recolheu o caderno e as canetas espalhados sobre a mesa e se despediu do lugar. Enquanto saía, um pensamento martelava: é tudo adeus, pode reparar.

Ilustração: Dani Dias (@danidiasarte)

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