Um brinde aos invisíveis



São seis da tarde, sou a primeira a entrar no bar. Cilce* me acompanha, mas ninguém vê. Escolho a mesa para duas pessoas, a atendente logo oferece o balcão, afinal, estou sozinha. Não estou, mas não posso falar. “Um amigo está a caminho”, é o que digo, sem olhar diretamente nos olhos da funcionária.

Encaro o homem, na minha frente, e desabafo. Cilce, ninguém apareceu. Ninguém reclamou teu corpo morto. Não reclamaram em vida, por que fariam isso agora? Teu primeiro lugar foi Bom Sucesso, cidade pequena no Paraná. Vejo tua mãe a te receber, a família feliz com a tua chegada. Você já teve lugar. Teve sim. Teve casa, cama, comida, profissão, abraço.


Será que você deixou algum filho? Esposa? Irmãos que lembram de ti e rezam para algum santo te proteger? Como encontrar proteção na rua, que é lugar e não-lugar? Ainda consigo te ver embaixo do viaduto, a estender a mão. Ou a perambular pelo posto de gasolina para pedir um copo com água. “Pode ser da torneira. Não tem problema”. Água da torneira mata a sede, água da chuva também. Você sabe disso, Cilce.


Quando a notícia chegou, sonhei contigo três noites seguidas. Sonhei que te chamava pra tomar uma, como fazemos agora, e tentava entender o acontecido. Você só respondia “não sei”. Talvez não saiba até agora e esteja vagando por aí, à espera de alguma explicação. O tiro na madrugada, o chão, poucos gemidos e nada mais.


“Só queria dar um susto”, disse o homem que atirou. Basta um susto e a vida não está mais lá. O assassinado à espera na gaveta fria, ninguém aparece para buscar. Deus abençoe essa não-gente, esse pobre indigente que agora terá lugar. É a terra, que vai receber o corpo, dar o abraço final.


Mesmo sozinha, peço a cerveja gelada e dois copos. Sirvo um pra mim, outro pro Cilce. Bebo o conteúdo dos dois e volto a encher cada um. O susto era teu, velho indigente, mas ele ainda ressoa em mim. Esvazio a garrafa, na esperança do susto passar. É o susto de imaginar que alguém atirou e foi dormir, a cabeça relaxada no travesseiro, o pensamento certeiro: “Menos um”.


Entorpecida, repito em voz alta: “O menos um era você, Cilce”. Chamo a atendente para pedir a conta, mas mudo de ideia. “Mais uma, por favor. A mais gelada que tiver”. Entre um gole e outro, a imagem dele se desfaz, vai e volta, sei que logo desaparecerá por completo. Puxo o caderno e a caneta de dentro da bolsa e escrevo sobre ele. Escrevo sobre você, Cilce, escrevo pra você, porque insisto em registrar essa história antes que o mundo todo te apague de vez e finja, terrivelmente, que você nunca existiu.


*Cilce Pereira da Silva era pessoa em situação de rua e tinha 63 anos. Ele foi morto em janeiro deste ano por um empresário, em Cuiabá (MT). O assassino foi indiciado por homicídio duplamente qualificado. Uma das testemunhas disse ter ouvido o empresário dizer que “só atirou para assustar”. Ele chegou a ser preso, mas atualmente responde em liberdade.

O corpo de Cilce Pereira da Silva permaneceu no Instituto Médico Legal por mais de três meses. Nenhum familiar compareceu para fazer o reconhecimento e liberação. Diante disso, Cilce foi sepultado em maio deste ano, em um cemitério de Cuiabá.

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