Urban jungle


Ilustração: Dani Dias (@danidiasarte )

- É meu! Vou ficar com ele.


Pela descrição do anúncio nos classificados, Marta soube que era o apartamento perfeito. O tamanho, a quantidade de quartos, a localização, sol da manhã, duas vagas na garagem, gás e água incluídos no aluguel. Além de tudo, portaria 24 horas.


Ela avistou a jiboia e toda a sua exuberância assim que a corretora abriu a porta. “Isso é o que chamo de urban jungle”, brincou a representante da imobiliária. Os ramos saíam do vaso de cerâmica posicionado em um dos cantos do apartamento, se espalhavam por toda a extensão das salas de estar e jantar. Alguns começavam a trepar pelas paredes, sem nada nem ninguém para controlar o crescimento. A inquilina anterior deixou a planta para trás.


Marta alugou o imóvel com jiboia e tudo. Um dia antes da mudança, fez a poda necessária, jogou os pedaços cortados no lixo e limpou cuidadosamente os cômodos. Optou por pendurar o vaso no teto, em um dos cantos da sala de estar. Tinha a impressão de que o vegetal crescia depressa demais, fora da normalidade. “Podo toda semana, eu juro”, dizia aos amigos, que nunca pediam mudas, não gostavam.


O apartamento ganhou várias tonalidades de verde rapidamente. Vasos tomaram conta da sacada, das salas, do escritório, da cozinha e do banheiro. Ela fazia jus ao apelido de louca das plantas, como diziam os mais próximos.


A inquilina passou a ter sonhos estranhos, sempre relacionados à jiboia. Eles começaram no dia do aniversário de dois meses na moradia nova, mostravam ramos que cresciam, se enrolavam em objetos e seres diferentes: cachorro, televisão, pássaro, toca-discos, a gata de estimação da mãe dela.


Numa noite quente para além do costume, viu a si mesma sufocada em meio à folhagem, da qual tentava se livrar. Marta acordou ofegante. Quis levantar, mas percebeu que estava presa pelos punhos e tornozelos. Os ramos da jiboia faziam caracóis enquanto se espalhavam pela cama e brincavam, feito cobras, sobre o corpo dela.

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