A grande metamorfose de Regina Penna



Reescrevi os primeiros parágrafos de “A metamorfose”, do Kafka, com outra roupagem. Era o exercício de mais uma aula de escrita. Na verdade, tentei reescrever: acho o trabalho do autor sensacional o bastante e isso me intimidou. Mesmo sabendo que se tratava apenas de um exercício e que, muito provavelmente, ninguém leria.

Reler os primeiros parágrafos da história sobre Gregor Samsa, que acorda de sonhos intranquilos, metamorfoseado num inseto monstruoso, me fez pensar nessa e em outras metamorfoses. No meu primeiro contato com o clássico kafkiano, eu era uma adolescente de quinze anos que adorava ler e estava feliz por ter ganhado mais um livro de presente de aniversário. Não fazia ideia de que livro era aquele.

Vou até a estante e procuro o livro, que seguro firme com as duas mãos. As mesmas mãos que um dia seguraram aquele livro pela primeira vez e que depois folhearam as suas páginas, na ânsia de entender o que havia se passado com o personagem. Me transformei durante aquela leitura e, desde que ela terminou, me transformei outras milhares de vezes.

No ranking das metamorfoses artísticas que me inspiraram e resgataram estão também as obras da artista plástica Regina Penna. Certa vez, depois de ter um dia bastante difícil, inserido em um período conturbado da minha vida, decidi ir até o Sesc Arsenal (unidade do Sesc em Cuiabá, Mato Grosso) para experimentar algum respiro. Meu dia foi salvo por uma exposição de obras da Regina. O nome da exposição não poderia fazer mais sentido: Metamorphosis.

Eu já conhecia a obra dela, mas aquela foi a primeira vez em que pus os olhos nos quadros da série “Casulos”, pelos quais me apaixonei. Diante deles, pensei nas minhas próprias transformações, nos caminhos percorridos até ali e senti segurança ao imaginar que as experiências daquele período se tratavam de um processo maior de transformação. No caminho para casa, desejei ter um casulo da Regina perto de mim.

Menos de dois meses depois da ida ao Sesc, iniciei a busca por um apartamento. A intenção era alugar um imóvel mobiliado. Por indicação de uma amiga, encontrei o local que tinha as características desejadas e fui até lá para conhecer. O dono do apartamento me encontrou na portaria e, muito solícito, fez questão de mostrar cada canto do prédio.

Quando ele abriu a porta do apê, imediatamente avistei três quadros da Regina Penna pendurados na parede da sala e comentei o quanto gostava do trabalho dela. “A Regina é minha tia”, ele explicou. Surpresa com aquela coincidência, entendi que havia um sinal diante de mim: eu deveria morar ali. E assim aconteceu.

Me tornei inquilina, passei alguns meses naquele apartamento, tomei muitos cafés enquanto contemplava as obras da Regina na parede, mostrei as telas para amigos que me visitaram, com alguns deles travei longas conversas sobre os elementos presentes nas obras. Até que me mudei de lá, por razões que não cabe explicar aqui.

Neste 2020 de tantas maluquices, experimentei mais uma mudança de endereço, pouco antes da pandemia nos colocar em isolamento social. Dessa vez, não se tratava de um apartamento mobiliado e eu poderia decorá-lo como bem desejasse. Falei com a Regina assim que terminei a mudança, disse a ela que havia uma parede esperando pelo casulo, tão simbólico para mim e para a artista.

Com ajuda de uma sobrinha da Regina, a gravura chegou até mim, ganhou moldura e ocupou o espaço que estava destinado a ela na parede da sala de jantar. O espaço no meu coração ela já havia ocupado. No dia em que a tela foi colocada na parede, sentei e escrevi um poema para Regina. Como gostei do resultado, resolvi publicá-lo em uma rede social, juntamente com a foto da tela. Na semana seguinte, recebi um telefonema que me deixou imensamente feliz. Era ela, a Regina. Me falou do poema, desejava saber se eu havia gostado da gravura, em qual lugar da casa ela estava.

Foi um telefonema de despedida. A última vez em que ouvi a voz dela. A voz parecia cansada, assim como ela estava. Disse que os remédios a deixavam muito sonolenta, que não gostava disso. “Me atrapalha desenhar”. Como eu admiro essa capacidade de adaptação que ela teve, de não deixar que esclerose alguma parasse a sua obra e a privasse daquilo que a salvava diariamente: a arte.

Quando soube da passagem dela, do rompimento da fronteira, do limiar de novos dias, imaginei a borboleta a romper o casulo. Não era a morte, era só mais uma metamorfose, a grande metamorfose de Regina Penna.

Compartilho com vocês o poema que escrevi para ela no dia 16 de junho de 2020 (ainda sem título):


Regina,

permaneço aqui

parada

a admirar teus traços,

tua obra imensa

infinita.

Imagino sempre

te encontrar sem pressa

te ter por perto

prosear sobre a vida

e suas metamorfoses.

Regina,

teu amanhã e o meu

são iguais,

nossos caminhos

nossas artes

não são.

Encaro teus traços

e eles me encaram:

mudei tanto

de ontem pra hoje.

Imagina então

o quanto mudei

em cinco anos

cinco meses ou

cinco minutos.

Artista do fim,

artesã de pontes

e silêncios,

me especializo em mim,

incansável na arte

de romper limites

e casulos.

Feito você, Regina,

obstinada

a criar caminhos,

abrir estradas

que te engrandecem

e salvam.

A cada traço,

uma incontestável

vitória.


*Crônica publicada originalmente pelo site Cidadão Cultura, em 22/08/2020.

https://www.cidadaocultura.com.br/grande-metamorfose-de-regina-penna/

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