Escritos sobre autoconhecimento (Parte I)

Deitada no sofá da sala, sentia o ar quente que o ventilador de teto movimentava. Ela olhou para o próprio corpo. Olhou uma vez, olhou outra. Observou os pés. Como alguém podia ter os dedos tão tortos? Sorriu ao pensar nisso. Passou pelas pernas, reparou alguns pelos que se assanhavam na virilha. Já estava na hora de marcar a depilação. Enquanto não fosse à depiladora, era melhor evitar qualquer encontro mais íntimo. Nada de sexo com aqueles pelos por ali.


O olhar seguiu até os seios. Eram bonitos, pequenos, tinham um contorno delicado e, pelas suas contas, fazia quase dois meses que não eram tocados por outra pessoa, além dela mesma. Decidida, começou a tocar suavemente os seios, a sentir como o corpo respondia àqueles toques, ao momento de contato e intimidade com si própria. A trilha sonora era um vozeirão que dizia I put a spell on you e ela gostava de cantar junto, enfatizando um trecho: You know I can’t stand it.


Ali, deitada no sofá, ela percebeu que aquele corpo ainda não era dela, embora a acompanhasse por quase vinte e cinco anos. Aquele corpo era um país desconhecido, um território que ela evitava olhar, tocar, sentir, explorar. Como passou tanto tempo sem olhar para ele? Ela conhecia Paris, São Paulo, Londres, Buenos Aires e mais uma infinidade de lugares pelo mundo. Mas o próprio corpo ainda era desconhecido para ela.


Naquele momento de contemplação, muitos detalhes chamaram sua atenção. Pintas que não conhecia, sardas, curvas, dobras, estrias, cantos que estavam esquecidos, deixados de lado. Diante de tantas descobertas, ela pensou no quanto aquele momento era libertador. Se não conhecemos nosso próprio corpo, como vamos permitir que outras pessoas o toquem, o conheçam da maneira como ele merece ser conhecido? Talvez isso explicasse alguns pudores, recatos e até mesmo as dificuldades dela na hora de se entregar para alguém. Pensou em tudo isso, respirando fundo para viver cada minuto, aproveitar aquela viagem repleta de intensidade.


Lembrou de quando era adolescente, dezessete anos, menos talvez. Um amigo começou a namorar uma mulher mais velha, que já passava dos trinta e tinha uma filha. Com aquela mulher, ela teve as primeiras conversas mais entusiasmadas sobre sexualidade, sobre corpo e o que podemos fazer com ele em busca de prazer. As conversas fluíam sem censuras e aquela mulher falava com tanta segurança, com tamanho conhecimento de causa que era bonito de ver, de ouvir. Era inspirador e ela desejava ser daquele jeito um dia, ser como aquela mulher.


Tantos pensamentos a deixaram com a cabeça e o corpo quentes, como se houvesse uma brasa percorrendo cada canto de seu corpo. Aproveitou para se olhar ainda mais, tocar os cantos pouco explorados, observar as marcas e detalhes ainda não vistos, apertar-se com força e reconhecer a vida em cada célula, em cada suspiro. Ela sabia que, a partir daquele momento, estava num caminho de êxtase, de descoberta de si, de fortalecimento, do qual já não podia fugir.


Precisava de um banho. O corpo estava tão quente, a respiração ofegante, parecia que acabara de correr quilômetros. O coração acelerado mandava avisar que ali, naquele corpo, havia vida, vida por todos os cantos. Correu até o banheiro e, em questão de segundos, estava livre das roupas. O banho seria quente, para combinar com a ocasião e com a explosão de calor e vida que acontecia ali.


Por alguns minutos permaneceu imóvel, deixando a água morna lavar o corpo, exorcizar os maus pensamentos, as amarras e prisões que a pressionavam e das quais ele precisava se libertar. Aos poucos, a excitação foi dando lugar à calma, à paz que ela não sentia fazia alguns anos. Como era boa aquela sensação!


Com o coração mais calmo, batendo mais devagar, ela deixou o banho e percebeu que era preciso descansar. O corpo ainda estava molhado quando jogou-se na cama e, rapidamente, dormiu um sono tranquilo, com leveza e paz. Ela sabia, no fundo sempre soube: para se libertar é necessário se conhecer. E isso também vale para o próprio corpo, tão aprisionado, tão oprimido por nós mesmos.


Ilustração: David Hettinger

*Conto publicado originalmente pelo site Cidadão Cultura, em 17/03/2017. https://www.cidadaocultura.com.br/escritos-sobre-autoconhecimento-parte-i/

3 visualizações
IMG_0829.jpeg

Boas vindas!

Por aqui você encontra um pouco da minha produção como escritora, especialmente contos, poemas e crônicas. Gostou? Compartilhe com outras pessoas.

Fique por dentro de todos os posts

Obrigado por assinar!

  • Facebook
  • Instagram
  • Twitter
  • Pinterest