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Resenha: Laços - Domenico Starnone

  • 16 de mai. de 2021
  • 2 min de leitura


“Agora sabemos um pouco mais sobre nosso pai. Que homem é esse que não protesta nunca, que sempre diz sim, sim, que foi e é o escravo da mamãe”.

A frase anterior é um desabafo. Anna e o irmão (Sandro) analisam o casamento dos pais, juntos a mais de cinquenta anos. Numa conversa bastante honesta, os dois levantam características dos genitores e fogem de qualquer tentativa de romantizar o exercício da paternidade e da maternidade. Não se furtam aos defeitos daqueles que os colocaram no mundo.

A conversa citada faz parte de “Laços”, livro do escritor italiano Domenico Starnone. O núcleo familiar criado por Aldo e Vanda, casados desde 1962, é o coração da trama. O autor mostra os percalços dessa relação e começa por apresentar as cartas que Vanda enviou ao marido entre 1974 e 1978, período em que ele saiu de casa porque decidiu viver com outra mulher.

A decisão de Aldo marca a história da família. Mesmo com o passar dos anos, a ideia de uma superação imposta e obrigatória faz com que alguns temas permaneçam obscuros para sempre e algumas feridas sejam apenas maquiadas. Quais os caminhos que levaram Aldo a ser um “homem-sombra, sempre silencioso” dentro da própria casa? Por que Vanda se escondeu numa carapaça tão rígida e aparentemente infalível?

O ponto forte do livro é abordar, de maneira tão simples e sincera, temas espinhosos como traição, a sensação de aprisionamento provocada pelas relações conjugais e as razões (reais) que levam as pessoas a permanecerem juntas. Para adentrar essas questões, Starnone se utiliza de uma ferramenta muito importante: a construção de diálogos poderosos.

Com mais de cinquenta anos de casados, Vanda e Aldo são surpreendidos ao chegar de férias e encontrar o apartamento revirado, nem sinal do gato de estimação. “Em toda casa há uma ordem aparente e uma desordem real” (p. 137). A casa em desordem traz à tona memórias, medos, segredos e faz nascer suposições nas cabeças dos moradores. Enquanto desvenda o que realmente aconteceu naquele lugar durante a viagem do casal, o leitor mergulha ainda mais na história de entrelaçamento dessa família.


Starnone e Elena Ferrante – Starnone nasceu em 1943, em Saviano (Itália). Ele já foi apontado como o autor das obras assinadas por Elena Ferrante, mas nega as especulações.


Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana, cuja identidade é mantida em segredo. Após as negativas de Starnone, as suspeitas recaíram sobre a esposa dele, Anita Raja, que é tradutora. Estaria ela por trás desse fenômeno literário?

1 comentário


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