Telefonema



A faxina começou cedo no sábado ensolarado. Depois de dias chuvosos, aquele era um bom momento para abrir as portas, janelas, escancarar cortinas para o sol entrar. Lígia tinha o objetivo de passar por todos os cômodos, limpar um a um, tirar a poeira que se acumulava, separar o que não usava mais e enviar à doação. Ao fazer isso, ela sentia o peso da vida diminuir. Se os sentimentos não andavam muito em ordem, pelo menos a casa estaria.


Arrumar a estante de livros era a parte preferida nos momentos de faxina. Separava tudo por autor, todos os autores dispostos em ordem alfabética. Esse hábito ela havia adquirido nos tempos em que trabalhou numa livraria. Passava horas empenhada na organização dos livros e costumava surpreender os clientes por encontrar as obras com tamanha rapidez.


Naquele dia, pano na mão, decidiu limpar livro por livro. Como num ritual, a limpeza de fora ecoava do lado de dentro. A poeira que saía das obras era como os sentimentos e uma porção de coisas que estavam nela e precisavam, tinham que sair. A pressa que ficasse longe, porque não era o tipo de trabalho para se fazer rápido. Havia tanta coisa presa, encarcerada no peito, coisas que ela carregava desde tempos remotos.


Quando começou a limpar “O país das neves”, do Kawabata, lembrou da época em que o havia lido. Adolescente, quatorze anos, no ano em que ela se apaixonou pela primeira vez. Estranhou pensar nisso depois de tanto tempo. De olhos fechados, segurando o livro, localizou em seu interior a menina com tantos sonhos na cabeça, algumas inseguranças naturais, outras nem tão naturais assim, mas uma leveza na alma que seria maravilhoso experimentar de novo. Seria possível?


De olhos abertos, começou a folhear o livro. Havia muitas marcações, trechos grifados, anotações. A letra da menina de quatorze anos estava ali e as impressões dela a respeito do livro também. Sentiu vontade de sorrir porque sabia que dentro de si também havia um pouco daquela menina.


Entre as páginas de “O país das neves” encontrou um pedaço de papel azul, com anotações feitas a lápis. Uma delas era um número de telefone, que reconheceu rapidamente: o número da casa em que morava quando tinha quatorze anos. O tempo não apagou da memória aquela combinação de algarismos que, durante vários anos, serviu para que as pessoas fizessem contato com a família Alencar.


O papel com as anotações abriu um portal para antigas lembranças. Algumas perguntas apareceram, todas envolviam o telefone. Por quanto tempo a família o utilizou? Quando se desfizeram da linha? Ela estaria sendo utilizada por alguém atualmente? Deitada no chão frio, Lígia ficou a pensar nessas coisas, enquanto olhava o pedaço de papel. Levantou-se e foi pegar o aparelho de telefone sem fio que ficava na sala de estar.


Sem racionalizar a atitude, discou o número que estava no papel azul e esperou completar a ligação. O coração batia forte junto com os sons da chamada. Em algum lugar, um telefone tocava. Pensou em desligar, achou o telefonema uma grande besteira. Mas algo dizia para permanecer na linha, para aguardar. Quando ouviu o “alô” do outro lado, suas pernas amolecerem.


Ela conhecia a voz feminina com a qual conversava. Tão próxima, tão de dentro. Para dissolver qualquer dúvida, partiu para a pergunta inevitável:

– Quem fala?

– Aqui é a Lígia. Com quem quer falar?

– Com você.


Numa mesma ligação, duas Lígias conversavam. Talvez fosse uma grande coincidência e se tratasse de pessoas diferentes, com o mesmo nome. Não era o caso. Aquela que ligou sabia, desde o primeiro instante, que conversava com a Lígia adolescente, de quatorze anos. A voz não deixava dúvida. Mero protocolo perguntar com quem falava, ambas se reconheciam e desejavam manter o diálogo.


– Esperei muito por esse momento. Eu sabia que um dia você ligaria. Não deixei o papel dentro do livro por acaso.

– Ainda não consigo acreditar em tudo isso, mas sinto o quanto é real.

– Sim, somos a mesma pessoa, mas estamos em tempos diferentes. Tenho quatorze anos. E você?

– Trinta e cinco.

– Como é ter trinta e cinco anos?

– É como ter quatorze. A diferença é que me sinto mais segura com algumas questões, sem tantos medos e não ligo muito pras opiniões dos outros.

– Você ainda lembra como se sentia aos quatorze anos?

– Lembro de algumas coisas. Não foi um período muito fácil.

– Eu adoraria tomar um café com você, te fazer relembrar fatos, sentimentos. Podemos nos encontrar?

– Claro! Ainda estamos na mesma cidade. Não sei ao certo como isso vai acontecer, mas seria uma experiência inesquecível.

– Quinze horas, em frente à igreja matriz. Pode ser?


A ligação caiu assim que a adolescente terminou de falar o lugar onde o encontro aconteceria. Confusa com a situação, Lígia discou novamente, para saber o que havia se passado e confirmar a programação vespertina. Roía as unhas vermelhas enquanto o telefone chamava. Uma voz masculina atendeu.


– Meu nome é João. Com quem deseja falar?

– Com a Lígia. Eu tava falando com ela, mas a ligação caiu.

– Desculpa, não conheço nenhuma Lígia. Eu moro sozinho aqui.

– Não pode ser.

– Moça, tenho algumas coisas pra resolver.

Pensando que poderia ter ligado para o número errado, apertado algum dígito diferente, Lígia discou de novo. O tal João atendeu, irritado.


– Já disse que não tem nenhuma Lígia aqui. Vou tirar o telefone da tomada.


Ela deixou o aparelho no ouvido por um tempo, em repouso, mesmo após perceber o fim da chamada. Se sentia confusa. Caminhou até a cozinha na esperança de que a garrafa verde de cerveja conseguisse esfriar a cabeça quente e pesada. “Trincando!”, disse em voz alta, enquanto passava a língua nos lábios.


Quando o relógio marcou quinze horas, a Lígia adulta foi até o escritório e se acomodou diante da escrivaninha. Com a caneta na mão, começou a escrever uma carta para a Lígia adolescente, a menina com quem havia conversado naquela manhã. Ainda tinha coisas para resolver com a jovem, por isso, seria melhor colocar tudo no papel.


Ao fim, restaram três páginas, frente e verso, escritas à mão. Dobrou as folhas ao meio e colocou dentro do livro do Kawabata, na mesma parte em que havia encontrado o bilhete com o número de telefone. Lígia observou a letra do bilhete e comparou com a letra da carta. Ao menos nisso, ela não havia mudado tanto.


*Conto publicado originalmente pela Revista Eletrônica Ruído Manifesto, em 22/10/2020.

http://ruidomanifesto.org/um-conto-de-larissa-campos-2/

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